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Quando o candidato vira influenciador, o eleitor vira seguidor?

Cinema, autenticidade e comunicação política: o que conhecemos de um candidato quando acompanhamos sua vida nas redes?

Colagem de um celular com um orador fictício, pessoas acompanhando a tela e setas de conexão em azul e roxo.
Acompanhar, interpretar e continuar cobrando. Ilustração editorial gerada com IA, com personagens fictícios.

Depois de escrever sobre cinema, vídeos de rotina e a maneira como reconhecemos o que parece real nas redes sociais, continuei essa discussão em conversas com alguns clientes de consultoria de marketing político.

Os assuntos se aproximavam: presença nas redes, linguagem, identificação e a dificuldade de comunicar o trabalho de alguém sem transformar cada publicação numa peça de propaganda. Mas, quando essa conversa chega à política, ela ganha consequências que vão além da imagem de um candidato. Passamos a discutir como escolhemos representantes, quais comportamentos aceitamos e o que estamos dispostos a relativizar em nome de uma identificação.

Acompanhamos políticos tomando café, atravessando a cidade, conversando com moradores e comentando acontecimentos pelo celular. Conhecemos seus hábitos, reconhecemos expressões e, às vezes, conseguimos antecipar como vão reagir a determinado assunto.

Esse acompanhamento pode aproximar a política da vida cotidiana. Também pode produzir uma familiaridade muito maior com a pessoa do que com o trabalho que ela realiza.

Foi essa diferença que me fez retomar uma reflexão que começou numa aula de cinema.

O que o cotidiano permite compreender

Já comentei aqui, no artigo O consumidor está saindo da caverna de Platão?, sobre a discussão do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, numa das aulas de cinema que acompanhei.

Lançado em 1948, o filme apresenta Antonio, um trabalhador que consegue um emprego numa Roma marcada pelas dificuldades do pós-guerra. Para trabalhar, ele precisa de uma bicicleta. Quando ela é roubada, sua possibilidade de sustentar a família fica ameaçada. Contextualização do filme pelo British Film Institute.

O que me chamou a atenção foi a maneira como essa história é contada. As ruas, os deslocamentos e as condições de vida ajudam a compreender o peso daquela perda. Uma bicicleta poderia parecer um objeto substituível se não conhecêssemos a situação de quem depende dela.

O filme faz parte do neorrealismo italiano, associado à atenção às experiências sociais comuns e à presença de espaços reais na narrativa. Minha leitura é que, ali, a cidade participa do conflito: conhecer o ambiente permite entender melhor o personagem.

Na aula, essa discussão foi relacionada à mímesis, presente na filosofia de Aristóteles.

Conceito, em poucas palavras — mímesis: na discussão aristotélica sobre a arte, envolve a representação de ações humanas. Uma obra pode organizar situações e experiências de modo a nos ajudar a compreendê-las, mesmo quando sua história é ficcional.

Na Poética, Aristóteles relaciona a representação ao reconhecimento e à aprendizagem. Isso ajuda a pensar por que uma narrativa inventada pode ensinar algo sobre a experiência humana. Aristóteles, Poética.

Essa discussão me interessa na comunicação política porque mostrar o cotidiano também pode revelar as condições em que as pessoas vivem. Uma estrada interrompida, a distância até um serviço de saúde ou o tempo gasto no transporte oferecem informações sobre problemas coletivos.

Mas isso depende do que a comunicação permite enxergar.

Imagine dois vídeos de uma visita a um bairro.

No primeiro, vemos o candidato chegando, cumprimentando moradores, ouvindo reclamações e caminhando por uma rua sem pavimentação. Há abraços, conversas e uma fala sobre a importância de estar perto das pessoas.

No segundo, além dessas imagens, entendemos o problema apresentado: quando começou, quem é afetado, qual órgão tem responsabilidade sobre ele e quais providências estão sendo discutidas.

A situação é hipotética, mas ajuda a perceber uma diferença. O primeiro vídeo permite observar a presença do candidato. O segundo oferece elementos para compreender uma questão pública e avaliar sua atuação.

Uma mesma visita pode produzir os dois conteúdos. O território pode ajudar a explicar a vida das pessoas ou aparecer principalmente como cenário para valorizar quem esteve ali.

É por esse caminho que aproximo o cinema da comunicação política: pelas escolhas que tornam uma experiência compreensível e por aquilo que essas escolhas deixam fora da nossa atenção.

As escolhas que organizam aquilo que vemos

Colagem de uma tela de celular enquadrando um aperto de mãos, enquanto o ponto de ônibus e o trabalho na rua permanecem fora do enquadramento.
O enquadramento seleciona parte da cena e deixa outras informações de fora. Ilustração editorial gerada com IA, com personagens e situação fictícios.

Essa relação entre ambiente e interpretação também ajuda quem trabalha com planejamento de conteúdo. Ao produzir uma publicação, fazemos escolhas sobre o que será mostrado, quem terá espaço para falar e quais informações acompanharão a imagem.

No cinema, percebemos com facilidade que uma cena envolve decisões. A posição da câmera, a duração, o som e a montagem participam da narrativa. Uma publicação política também pode ser organizada por escolhas desse tipo, inclusive quando utiliza a aparência de um registro casual.

Uma gravação feita no celular pode mostrar um encontro verdadeiro e, ao mesmo tempo, apresentar apenas uma parte dele. A seleção não torna o acontecimento falso, mas influencia o que conseguimos compreender.

Na pesquisa em comunicação, o conceito de enquadramento ajuda a explicar esse processo. Robert Entman descreve como selecionar e dar destaque a determinados aspectos da realidade pode favorecer uma definição do problema, uma interpretação de suas causas, uma avaliação moral ou uma solução. Framing: Toward Clarification of a Fractured Paradigm.

Conceito, em poucas palavras — enquadramento: maneira de selecionar e destacar aspectos de um assunto, orientando o que recebe atenção e como o problema é apresentado.

Retomemos a visita ao bairro. Se o vídeo destaca os abraços e a chegada do candidato, a presença dele ocupa o centro da história. Se apresenta o tempo de espera dos moradores por uma solução, as condições da rua e as responsabilidades envolvidas, oferece outro caminho de compreensão.

Para quem assiste, isso sugere uma pergunta: quais elementos estão me levando a formar essa impressão sobre o candidato?

Para quem produz, a pergunta se volta à própria decisão: o que esta publicação permite que as pessoas conheçam sobre o problema e sobre a atuação de quem pretende representá-las?

Essa discussão tem uma aplicação concreta. Antes de gravar, a equipe pode definir qual situação precisa ser compreendida, quais informações são necessárias e como o representante participa dela. Isso ajuda a escolher o ambiente, as pessoas ouvidas e a sequência da explicação.

Uma publicação sobre transporte, por exemplo, pode mostrar como a distância entre a casa e o ponto interfere na rotina de uma pessoa. O ambiente oferece informações que uma fala genérica sobre mobilidade não conseguiria apresentar sozinha.

Também precisamos observar como o público recebe essas escolhas. Num experimento com imagens de dois candidatos ao Congresso dos Estados Unidos, Diana Zulli e Terri Towner encontraram efeitos variados para sinais visuais de autenticidade, emoção e atividade em tempo real. A disposição declarada de votar e a avaliação das chances de vitória não responderam da mesma maneira. Estudo publicado em Social Media + Society.

Para mim, esse resultado reforça a necessidade de compreender a relação entre imagem, contexto e interpretação. Reproduzir a estética de um conteúdo que funcionou para outra pessoa oferece poucas respostas sobre o que nosso público está reconhecendo ali.

O planejamento precisa considerar tanto a intenção de quem comunica quanto as leituras possíveis de quem recebe.

Como o político passa a fazer parte do nosso dia

A construção da imagem política já existia antes das redes sociais. Visitas a feiras, encontros com trabalhadores e cenas de convivência familiar participam há muito tempo da apresentação pública de candidatos.

Nas plataformas, esse repertório encontra uma possibilidade de acompanhamento frequente. Vemos a saída para uma agenda, o deslocamento, a conversa depois do evento e o comentário sobre uma notícia. Aos poucos, aquela pessoa ocupa um lugar familiar no feed.

Essa continuidade pode mudar a natureza do vínculo. O político aparece como alguém cuja rotina acompanhamos, com histórias, preferências e maneiras de falar que aprendemos a reconhecer.

Conceito, em poucas palavras — personalização da comunicação política: destaque dado à pessoa do político, à sua trajetória e às suas características, em relação a partidos, instituições e questões coletivas.

Há também uma sensação de proximidade que merece atenção. Podemos lembrar de acontecimentos da vida de uma figura pública e sentir que a conhecemos, embora ela saiba muito pouco sobre nós.

Conceito, em poucas palavras — relação parassocial: vínculo percebido com uma figura acompanhada pela mídia, marcado por uma familiaridade que não corresponde, necessariamente, a uma relação pessoal recíproca.

As redes permitem interações reais. Um comentário pode receber resposta, uma demanda pode chegar à equipe e uma transmissão pode incorporar perguntas do público. Ainda assim, o acesso e o conhecimento entre as partes continuam muito diferentes.

Minha preocupação começa quando essa familiaridade passa a ocupar o lugar de outras informações. Conhecer os hábitos de alguém pode contribuir para a impressão que formamos sobre essa pessoa. Para avaliar um representante, precisamos conhecer também suas decisões, seus compromissos e os efeitos de sua atuação.

Parecer autêntico não resolve a avaliação política

No trabalho com comunicação, a autenticidade aparece com frequência como uma orientação: a marca precisa ser autêntica, o influenciador precisa parecer próximo, o candidato precisa mostrar quem é.

Mas o que reconhecemos quando dizemos que um político parece autêntico?

O pesquisador Simon Luebke propõe quatro dimensões para estudar essa construção: consistência, intimidade, caráter comum e imediatismo. Elas envolvem a coerência percebida ao longo do tempo, o acesso à vida pessoal, a apresentação como alguém comum e a impressão de expressão direta ou espontânea. Political Authenticity: Conceptualization of a Popular Term.

Conceito, em poucas palavras — autenticidade política percebida: avaliação de que um político parece fiel a si mesmo, construída a partir de sua apresentação pública, da mediação das mensagens e da interpretação do público.

Essa definição ajuda a entender por que colocar o celular na mão de um candidato resolve apenas uma pequena parte da discussão. Um vídeo informal pode parecer deslocado se não combina com sua maneira de se comunicar. Uma produção profissional pode ser coerente com sua trajetória e com a situação apresentada.

A partir daí, há uma distinção que considero fundamental: parecer fiel a si mesmo não comprova que alguém esteja dizendo a verdade ou defendendo algo aceitável.

Um político pode repetir uma posição discriminatória durante anos e ser percebido como coerente. Pode fazer uma afirmação falsa com convicção e parecer espontâneo. A autenticidade percebida ajuda a explicar como ele é recebido; o conteúdo continua exigindo avaliação factual e moral.

É por isso que justificativas como “ele sempre foi assim” ou “pelo menos fala o que pensa” me incomodam. Elas podem transformar a persistência de um comportamento em motivo para dispensar sua análise.

Se o que alguém pensa envolve diminuir direitos, humilhar pessoas ou atacar a democracia, precisamos discutir o significado dessa posição e as consequências de conceder poder a quem a defende.

A semelhança que aproxima e o pertencimento que protege

Na minha dissertação de mestrado, investiguei como influenciadores e seguidores constroem relacionamentos nas redes sociais. Um dos conceitos que utilizei foi a homofilia.

No artigo Birds of a Feather: Homophily in Social Networks, McPherson, Smith-Lovin e Cook discutem como semelhanças participam da formação de conexões sociais. Pesquisa publicada em 2001.

Conceito, em poucas palavras — homofilia: tendência de pessoas semelhantes estarem conectadas. Essas semelhanças podem envolver características sociais, experiências e valores; os próprios ambientes de convivência também influenciam quem encontra quem.

Na política, esse conceito oferece um ponto de partida para pensar a identificação. Podemos reconhecer num candidato uma experiência, uma linguagem, uma crença religiosa ou uma indignação que também faz parte da nossa vida.

Essa aproximação pode existir mesmo quando as condições materiais são muito diferentes. Um eleitor pode se identificar com um político rico pela maneira como ele interpreta um conflito, define adversários ou expressa determinados valores.

A homofilia, porém, não explica sozinha essa relação. Conexão, identificação e confiança são coisas distintas. O voto também envolve interesses, experiências de governo, vínculos partidários e rejeição a outras alternativas.

O que me interessa observar é a passagem da identificação para uma defesa que passa a proteger a liderança de qualquer cobrança.

Uma crítica pode ser recebida como ataque a todos os seus apoiadores. Uma contradição pode ser relativizada porque vem de alguém percebido como parte do grupo. Aos poucos, avaliar uma conduta pode adquirir o significado de trair um pertencimento.

É nesse ponto que a análise da comunicação encontra uma questão moral: quais comportamentos aceitamos para continuar defendendo alguém com quem nos identificamos?

O bolsonarismo e a responsabilidade por aquilo que toleramos

Jair Bolsonaro em registro oficial em Brasília, em abril de 2019.
Jair Bolsonaro em Brasília, em 24 de abril de 2019. Foto: Isac Nóbrega/PR, via Palácio do Planalto. Fonte e ficha da fotografia · CC BY 2.0. Foto de arquivo: não registra os episódios de 2017 e 2023 discutidos no texto. Redimensionamento e conversão para WebP, sem recorte.

Quando penso no bolsonarismo, considero insuficiente observar apenas sua capacidade de utilizar as redes sociais. Também precisamos discutir quais valores participam dessa comunicação e o que sua circulação ajuda a legitimar.

Ricardo Fabrino Mendonça e Renato Duarte Caetano analisaram a apresentação visual de Bolsonaro no Instagram. O estudo examina como suas imagens o apresentam como semelhante ao povo, como alguém extraordinário e como uma figura que se apropria de símbolos de poder. Populism as Parody.

Essa combinação ajuda a compreender como proximidade e autoridade podem aparecer juntas: alguém apresentado como comum pode, ao mesmo tempo, reivindicar uma capacidade excepcional de enfrentar adversários.

Mas reconhecer esse mecanismo não encerra a análise. Para mim, estudar sua eficiência também exige olhar para aquilo que está sendo comunicado.

Em 2017, o STJ manteve a condenação de Bolsonaro a indenizar Maria do Rosário por danos morais, no caso da declaração de que ela “não merece ser estuprada”. O tribunal reconheceu a ofensa à dignidade da deputada. Registro do julgamento pelo STJ.

Minha avaliação é que uma declaração desse tipo precisa ser discutida pelo seu conteúdo misógino e pela violência que mobiliza. Tratá-la apenas como linguagem provocadora ou comportamento espontâneo reduz a gravidade do que foi dito.

Há também a dimensão institucional. Em junho de 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores realizada em julho de 2022. Registro do julgamento pelo TSE.

Esses episódios colocam questões que a familiaridade com uma liderança não pode resolver. Gostar da pessoa, reconhecer sua linguagem ou compartilhar parte de suas posições não elimina a responsabilidade de avaliar suas condutas.

Não acredito que todos os eleitores de um candidato concordem com tudo o que ele diz. As pessoas fazem escolhas por motivos diversos, inclusive por rejeição às alternativas. Essa complexidade, entretanto, também precisa incluir aquilo que se decide tolerar.

Quando uma fala discriminatória é conhecida e relativizada para preservar o apoio, há uma escolha sobre o peso atribuído aos direitos das pessoas atingidas. Quando uma conduta antidemocrática é tratada como detalhe, há uma escolha sobre quais limites devem valer para quem exerce poder.

Minha preocupação é justamente a possibilidade de o pertencimento político tornar esses limites negociáveis.

Isso também vale para discursos racistas, homofóbicos ou para ataques a outros grupos: a pergunta moral permanece quando a ofensa é apresentada como humor, coragem ou sinal de autenticidade.

Governar exige decidir sobre a vida de uma sociedade plural. Mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ e adversários políticos continuam tendo direitos, independentemente da identificação que uma liderança desperta em sua base.

É por isso que, para mim, a análise do bolsonarismo precisa considerar o conteúdo e as consequências de sua comunicação. Saber como uma mensagem mobiliza é parte do trabalho. Examinar o que ela normaliza também é.

Lula, os formatos informais e o espaço para a cobrança

Lula e Janja em atividade de campanha no Complexo do Alemão, cercados por pessoas com celulares, em outubro de 2022.
Lula em atividade de campanha no Complexo do Alemão, em 12 de outubro de 2022. Crédito: Marcelo Freixo/Flickr, conforme ficha do acervo. Fonte e ficha da fotografia · CC BY 2.0. Redimensionamento e conversão para WebP, sem recorte.

Esse critério de avaliação também orienta meu olhar para Lula e sua comunicação.

Na disputa presidencial de 2022, suas entrevistas aos podcasts Podpah e Mano a Mano fizeram parte das estratégias de circulação de seus discursos. Marcelo Kischinhevsky e Leonardo Lopes do Couto analisaram essas participações, junto de entrevistas de Bolsonaro e Ciro Gomes, observando também a ausência frequente de contraposição pelos entrevistadores. Pesquisa publicada na revista Radiofonias.

Isso permite formular uma questão mais útil do que pressupor que alguém demorou a descobrir determinada linguagem: o que a participação naquele formato permitiu conhecer e questionar?

Uma conversa longa pode explicar trajetórias, contextualizar decisões e desenvolver propostas. Pode também oferecer um ambiente confortável em que contradições recebem pouca atenção.

Minha crítica é à possibilidade de tratar proximidade como resultado suficiente. Uma boa aparição nas redes deveria abrir caminho para uma compreensão maior da atuação política. Se termina apenas na sensação de que o candidato é agradável ou parecido conosco, essa oportunidade fica limitada.

Para quem apoia Lula, a afinidade também precisa comportar cobrança. Uma relação democrática deve permitir examinar decisões do governo, compromissos assumidos, escolhas de alianças e resultados, inclusive quando essa avaliação incomoda quem torce pelo sucesso da liderança.

Aplicar esse critério a diferentes políticos exige examinar cada conduta em sua especificidade. A responsabilidade pública se mantém como exigência para todos.

Quando o acontecimento já nasce pensando no corte

Pablo Marçal, na eleição municipal de São Paulo em 2024, oferece outra entrada para essa discussão: a relação entre candidatura, recortes de vídeo e distribuição.

O caso mostra por que precisamos observar também os incentivos para fazer uma mensagem circular. Em comunicado de agosto de 2026, o TRE-SP registrou que havia mantido, em dezembro de 2025, uma condenação relacionada a um concurso de cortes da campanha de 2024. Na data daquele comunicado, ainda cabia recurso ao TSE nesse processo. Informações do TRE-SP.

Um debate pode ser acompanhado integralmente por uma pessoa e chegar a outra em poucos segundos. Pergunta, resposta e reação podem circular separadas. Cada edição organiza uma interpretação e pode retirar elementos necessários para compreender o acontecimento.

Há ainda uma hipótese que considero importante investigar: quando a circulação posterior passa a orientar a própria produção da situação política.

Imagine uma campanha que percebe que confrontos geram mais repercussão do que explicações de propostas. Se essa repercussão é tomada como principal medida de sucesso, a equipe pode passar a valorizar comportamentos capazes de produzir novos confrontos.

Nesse exemplo hipotético, a atenção recebida funciona como incentivo para repetir determinada conduta. O acontecimento político começa a ser organizado também em função do conteúdo que poderá render.

Essa possibilidade exige uma análise que vá além das visualizações. A circulação pode aumentar o conhecimento de uma candidatura, mas também pode produzir rejeição. Atenção, aprovação e voto precisam ser examinados separadamente.

E há uma consequência para o debate público: o tempo ocupado por confrontos pode reduzir o espaço disponível para discutir problemas, responsabilidades e propostas. A pergunta passa a incluir o que conseguimos compreender da política que estamos acompanhando.

O cotidiano também pode mostrar responsabilidade pública

Mostrar a rotina tem valor quando esse acesso permite entender melhor a atuação de um candidato ou representante.

Imagine uma sequência de publicações sobre transporte. Primeiro, conhecemos a situação relatada pelos moradores. Depois, acompanhamos a discussão com os órgãos responsáveis, as limitações encontradas e o encaminhamento adotado.

Se o problema não for resolvido, a continuidade também permite perguntar o que aconteceu. Houve impedimento jurídico? Faltou orçamento? A proposta foi rejeitada? A promessa ultrapassava as atribuições do cargo?

Conceito, em poucas palavras — prestação de contas: apresentação de decisões, ações, resultados e justificativas de modo que outras pessoas possam examiná-los e questioná-los.

Nesse caso, o cotidiano oferece elementos para avaliar um processo. O representante precisa explicar o alcance de sua atuação, e os moradores aparecem com demandas que continuam existindo depois da gravação.

É uma possibilidade que me interessa profissionalmente e como cidadão. A comunicação pode tornar o trabalho político mais compreensível, inclusive quando mostra dificuldades, negociações e resultados incompletos.

Conhecer essas limitações pode ser mais útil do que acompanhar uma sequência de cenas em que o candidato sempre aparece como protagonista de uma solução.

O eleitor também está no feed

Quando pergunto se o eleitor vira seguidor, estou pensando também num comportamento bastante concreto. Ele acompanha perfis, recebe vídeos, comenta, compartilha e defende figuras políticas nos mesmos ambientes em que conversa com amigos, procura informações e se diverte.

O eleitor também é usuário dessas plataformas. Parte do contato que estabelece com a política acontece dentro dessa rotina.

Os indicadores ajudam a dimensionar esse ambiente. No levantamento divulgado pelo DataReportal em 2024, com dados da GWI, internautas brasileiros de 16 a 64 anos declaravam passar, em média, 3 horas e 37 minutos por dia nas redes sociais. Relatório sobre tempo de uso das redes.

Já o Digital 2026: Brazil, com dados referentes a outubro de 2025, estimou 150 milhões de identidades de usuários de redes sociais no país. Essa medida não corresponde necessariamente a pessoas únicas, mas ajuda a compreender a dimensão da presença brasileira nessas plataformas. DataReportal, Digital 2026: Brazil.

São indicadores de períodos e medidas diferentes. Juntos, oferecem contexto para uma questão que atravessa o trabalho de comunicação: uma parcela expressiva do público passa tempo nesses ambientes e encontra ali conteúdos que participam de sua visão de mundo.

No feed, um vídeo político pode aparecer entre uma receita, uma notícia, uma história pessoal e um conteúdo de humor. Quem comunica precisa compreender essa situação de consumo: o que faz alguém prestar atenção, reconhecer a relevância de um assunto e querer acompanhá-lo?

A presença digital de Ana Elisa oferece um caso para pensar essa relação nas eleições de 2026. Eleita deputada federal por Minas Gerais, ela recebeu 524.219 votos. A comunicação do próprio PT registrou sua forte atuação nas redes, com conteúdo político e jurídico voltado principalmente à juventude. Registro publicado pelo partido em 5 de outubro de 2026.

Esse resultado não permite atribuir sua votação apenas às plataformas. Mas sua trajetória oferece uma entrada para discutir como a produção contínua de conteúdo pode participar da apresentação de uma liderança e de suas posições ao público.

Nesta passagem para o segundo turno de 2026, penso que essa discussão interessa a quem acompanha a política e a quem planeja sua comunicação. Para o estrategista, ela exige atenção à linguagem, à continuidade e à relação construída. Para o eleitor, exige atenção àquilo que essa relação o ajuda a conhecer — e ao que pode levá-lo a aceitar sem examinar.

O que estou realmente conhecendo desse candidato?

No artigo anterior, utilizei a Alegoria da Caverna de Platão para discutir representação e conhecimento na relação entre consumidores e conteúdos digitais.

No livro VII de A República, pessoas que conhecem apenas sombras projetadas numa parede tomam aquilo que veem como sua referência de realidade. A narrativa desenvolve uma reflexão sobre educação e a dificuldade de transformar nossa compreensão do mundo. Platão, A República, livro VII.

Quero trazer essa pergunta agora para nossa experiência como eleitores online: o que estamos realmente conhecendo quando acompanhamos um político pelas redes sociais?

Um vídeo pode registrar uma visita que aconteceu, apresentar moradores reais e reproduzir uma conversa verdadeira. Ainda assim, precisamos compreender o alcance do que foi mostrado.

Ver o candidato ouvindo uma reclamação demonstra que aquele encontro ocorreu. Para avaliar sua atuação, precisamos conhecer também suas atribuições, os encaminhamentos adotados e o que aconteceu depois.

Há situações em que a própria afirmação exige verificação. Uma publicação que atribui ao político a entrega de uma obra, por exemplo, precisa permitir compreender qual foi sua participação. Comparecer à inauguração, destinar recursos, executar o projeto e fiscalizar sua realização são atuações diferentes.

Por isso, perguntar se o que vemos é real envolve examinar tanto a veracidade da informação quanto a interpretação que ela sugere. Um registro verdadeiro pode ser apresentado de uma maneira que nos leve a atribuir responsabilidades ou resultados que ele, sozinho, não demonstra.

É aqui que a consciência das escolhas de comunicação se torna útil para o eleitor. A legenda, o enquadramento e a edição participam da impressão que formamos. Reconhecer isso nos ajuda a procurar contexto, comparar informações e perceber quais perguntas ainda precisam ser respondidas.

Essa atenção também precisa alcançar os valores comunicados. Quando uma publicação utiliza humilhação, preconceito ou ataque a direitos para gerar identificação, sua avaliação exige mais do que conferir se o episódio aconteceu.

Como discuti no caso do bolsonarismo, importa examinar aquilo que a mensagem legitima e o que estamos dispostos a tolerar em nome do vínculo com a liderança.

A familiaridade pode tornar uma pessoa reconhecível. A responsabilidade política exige continuar avaliando o que ela diz e faz.

O que estou mostrando ao meu eleitor?

Para quem trabalha com comunicação, essa reflexão volta como uma pergunta sobre o próprio planejamento: que conhecimento estou oferecendo ao público e com o que espero que ele se conecte?

Essa conexão pode nascer do reconhecimento de uma dificuldade cotidiana, da compreensão de uma proposta ou da percepção de que alguém está acompanhando uma demanda. Também pode ser construída pela indignação, pela identificação com valores e pela maneira como um conflito é apresentado.

Entender esse processo ajuda a planejar o conteúdo. No exemplo do transporte, conhecer a rotina dos moradores permite mostrar por que determinado problema importa. Explicar as atribuições do cargo permite situar a atuação do representante. Acompanhar os encaminhamentos permite construir continuidade.

Assim, o ambiente, as falas e as imagens têm uma função dentro da explicação. A equipe consegue avaliar o que precisa registrar porque sabe o que pretende tornar compreensível.

Também pode observar a resposta do público com perguntas mais específicas: as pessoas entenderam a proposta? Reconheceram como ela afeta sua vida? Apresentaram dúvidas sobre a execução? O conteúdo ajudou a esclarecer a responsabilidade de cada órgão?

Essas respostas oferecem material para o planejamento seguinte. Uma dúvida recorrente pode indicar uma explicação incompleta. Uma demanda recebida pode revelar uma experiência que ainda não apareceu na comunicação.

É nesse sentido que vejo a pesquisa sobre comportamento como parte do trabalho estratégico. Ela ajuda a compreender a recepção das mensagens e a questionar nossas próprias suposições sobre o público.

Mas esse conhecimento também implica responsabilidade. Saber que determinada mensagem mobiliza não encerra sua avaliação. Precisamos considerar se ela informa com precisão, respeita as pessoas envolvidas e permite compreender as consequências da posição defendida.

Para mim, essa exigência faz parte da estratégia que vale a pena construir.

Acompanhar, interpretar e continuar cobrando

Então, quando o candidato vira influenciador, o eleitor vira seguidor?

O candidato pode incorporar práticas de influenciador, e o eleitor pode desenvolver hábitos de seguidor: acompanhar, comentar, compartilhar e defender. Em muitos casos, ele já faz isso. É nessa condição concreta, com o celular na mão e mensagens disputando sua atenção, que também estabelece parte de sua relação com a política.

Quem planeja comunicação precisa compreender esse comportamento para produzir conteúdos que façam sentido na vida das pessoas. Quem acompanha esses conteúdos precisa reconhecer que está diante de uma apresentação construída por escolhas.

A cena foi selecionada. O ambiente participa da mensagem. A sequência orienta nossa atenção. Mesmo quando o registro mostra algo que aconteceu, precisamos examinar o que ele permite concluir.

A aproximação com o cinema me ajuda justamente a observar essa construção. A discussão com Platão me leva a perguntar como ampliar o conhecimento para além daquilo que a primeira imagem oferece.

Como eleitor, quero compreender o que estou vendo, verificar as afirmações e acompanhar as decisões de quem pede meu apoio. Como profissional de comunicação, preciso pensar no que escolho mostrar, nas interpretações que essa escolha favorece e na responsabilidade que assumo ao fazê-la.

Essas duas perspectivas se encontram na minha maneira de olhar para o conteúdo. A estratégia me interessa porque participa da construção dos vínculos. A crítica me interessa porque esses vínculos têm consequências sobre a vida coletiva.

Por isso, conhecer a linguagem das redes e cobrar responsabilidade pública são partes da mesma discussão.

Posso acompanhar um político todos os dias, gostar de seus vídeos e reconhecer nele valores que compartilho. Preciso continuar capaz de discordar, verificar uma informação e considerar a gravidade de uma conduta, inclusive quando essa avaliação ameaça minha identificação com ele.

E, quando estiver do outro lado, ajudando a planejar uma publicação, preciso perguntar o que estou oferecendo para que essa avaliação seja possível.

O vínculo pode começar numa imagem. A relação democrática precisa continuar nas informações, nas decisões e na possibilidade de cobrança.

— Álvaro César

Referências para aprofundar

Os blocos conceituais são sínteses didáticas. As aproximações entre cinema, filosofia, comportamento e comunicação política integram a interpretação desenvolvida neste artigo.

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